fanzines de banda desenhada

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Erotismo e/ou pornografia nos fanzines (II) - Autor: Machado

Segunda imagem para reacender a polémica: onde acaba o erotismo e começa a pornografia? Há fronteira entre os dois géneros? É detectável essa fronteira? Uma banda desenhada onde há uma cena de sexo explícito, apesar de fazer parte do enredo, será gratuita, tentará explorar o "voyeurismo", seria dispensável? Ou nem por isso?
A prancha reproduzida no topo do "post" é da autoria de Machado, desta forma simplificada assina o bem conhecido J. Machado-Dias quando faz banda desenhada (coisa que pouca gente conhecia ao citado, também já com folha de serviço como argumentista, mas mais reconhecido enquanto editor), pertence ao episódio O Regresso de Valentina, um tributo a Guido Crepax.
Esta banda desenhada integra-se, tal como a anterior, nas páginas do fanzine Eros nº10. Quem quer classificar a terceira vinheta da prancha acima reproduzida? Aceitam-se opiniões.
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Na mesma linha fluida entre erotismo e pornografia, há já neste blogue fanzinístico mais três imagens perturbantes e, eventualmente, susceptíveis de desacordo na interpretação (as opiniões discutem-se, na minha discutível opinião...).
Foram elas desenhadas por Pepedelrey ("post"de Dez. 28, 2007), JCoelho (Jan. 2, 2008) e Machado (Jan. 9, 2008).

7 Comentários:

Às 9:29 da tarde , Blogger Alvaro disse...

Eu tinha colocado no DivulgandoBD este texto sobre o que é o erótico e o que é o pornográfico mas posso reproduzí-lo aqui.
Cá vai.

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O erotismo e a pornografia são coisas perfeitamente distintas.

O erotismo é o estado de excitação ou o processo mental de estimulação erótica que tem como objectivo atingir ou manter a excitação sexual.

O erótico para um determinado indivíduo será aquilo que o excita. Pode ser a proximidade da vizinha no elevador, um par de pernas à sua frente no autocarro, uma simples bota numa montra ou um pastor alemão ofegante. O erótico, a imagem erótica, existe apenas no cérebro.

Uma foto da bota ou das pernas, um filme do pastor alemão ou uma descrição literária dos efeitos da proximidade da vizinha no elevador, impressos, reproduzidos teatralmente ou ou registados em qualquer outro suporte físico será pornografia.

A pornografia é algo fabricado. Uma foto, um desenho, um filme, um texto ou uma dança se forem efectuados com o objectivo de provocar em terceiros a excitação sexual (o estado erótico) é pornografia.

Se é de boa ou de má "qualidade", então já entramos claramente no campo da subjectividade e no consequente diálogo de surdos.
Geralmente aquilo que "eu" aprecio será sempre melhor daquilo que "tu" aprecias. Os termos erotismo e pornografia são aqui utilizados para marcar essa barreira. Mas são mal utilizados porque são conceitos diferentes e perfeitamente objectivos.

 
Às 1:37 da manhã , Blogger Gustavo Carreira (requiem) disse...

Entáo, um desenho de uma bota pode ser pornografia para uns e não o ser para outros? Ou será apenas pornografia caso tenha sido essa a intenção do autor do desenho?
E úm mirone que, escondido, filma 2tipos a penetrar uma gaja está perante erotismo, enquanto aquele outro que depois visiona a cassete está perante pornografia?
O que distingue a apreensão sensorial do objecto de desejo "in locu", da sua apreensão sensorial através de algum suporte "fabricado"? Não se passa tudo a igual nível cerebral?

 
Às 11:00 da tarde , Blogger Alvaro disse...

Tudo isso é erótico. Ou se preferires, tudo isso será excitante para alguém.

A pornografia é apenas o suporte "fabricado". Começa e acaba ali no respectivo objecto (foto, filme, espectáculo de palco, desenho, dança, livro, site...).

Obviamente toda a pornografia terá como objectivo a excitação de alguém.
Ou
Toda a pornografia será erótica para alguém.

 
Às 12:49 da tarde , Blogger Porfirio Silva disse...

A propóito, permito-me sugerir uma visita à posta Apuleio, O burro de ouro - Manara, A metamorfose de Lúcio .

 
Às 6:46 da tarde , Blogger Geraldes Lino disse...

Desconhecido Porfírio Silva (haja Zeus, que é um dos bloguistas que se identifica)
Já visitei o seu blogue Machina Speculatrix, e deixei lá um comentário.
Além do óptimo "post" que lá afixou (bom literariamente, e bom na comparação entre o texto de Apuleio e a adaptação livre de Manara),houve outra coisa que admirei no seu blogue: a possibilidade de ampliar todas as imagens inseridas ao longo da postagem, enquanto que nos meus blogues (este e o Divulgando Banda Desenhada) apenas me é permitido (?) a ampliação da imagem de topo, qualquer outra que insira a meio do texto não é ampliável.
Como é que se consegue isso, pode explicar-me?

 
Às 2:26 da manhã , Blogger Jorge Machado-Dias disse...

Bem, só agora dei com este "post" e, como não podia deixar de ser, tenho que dizer duas ou três coisas.

É assim:

Para já a pergunta do Geraldes Lino está mal formulada. O erotismo não é nenhum género, mas sim um conceito (quem quiser leia Georges Bataille, que definiu esse conceito e inventou a palavra, in "L'Erotisme", 1952 - Ed. Portuguesa "O Erotismo", Georges Bataille, Lisboa, Antígona, 1988).

O que talvez Lino quisesse perguntar era se existia fronteira entre pornografia soft ou pronografia hard. E a pornografia, além de ser um conceito, é também um género. É preciso conhecer as coisas antes de se falar.

Convém esclarecer antes de mais que a palavra "pornografia" nasceu de uma obra de Restif de la Brettone, "Le Pornographe", publicada em 1769 e era um tratado sobre prostitutas. É uma palavra inventada, o autor foi ao grego e juntou πόρνη (pórne), "prostituta" e γραφή (grafé), "escrita". E o conceito foi depois desenvolvido e aplicado aos livros que anteriormente se designavam por "licenciosos".

Depois é preciso ler mais algumas coisitas para se perceber a confusão que se estabeleceu nos anos 70 do séc. XX entre as palavras (e conceitos) pornografia e erotismo. Às tantas ninguém sabe do que está a falar e usa as palavras, aplicando-as a conceitos, como se fossem certezas absolutas. E não é bem assim.

Para não me alongar muito, cito apenas uma frase de Sarane Alexandrian na sua "Histoire de la littérature érotique", 1981 ("História da Literatura Erótica", Lisboa, Livros do Brasil, 1991, ao afirmar:

“(...) Hoje, em face das mais desenfreadas produções literárias e cinematográficas, em vez de se invocar a virtude como antigamente, pretende-se distinguir entre o erótico e o pornográfico. Consiste esta nova forma de hipocrisia em dizer: se este romance, ou este filme (ou esta banda desenhada) fosse erótico, eu inclinar-me-ia perante a sua qualidade; mas é pornográfico, portanto rejeito-o com indignação. Este raciocínio é tanto mais inepto, quanto ninguém consegue explicar a diferença. E por esta razão: não há diferença. A pornografia é a descrição pura e simples dos prazeres da carne; o erotismo é esta mesma descrição valorizada em função de uma ideia do amor ou da vida social. Tudo o que é erótico é necessariamente pornográfico. (…)”

Quem quiser que leia primeiro o que se escreveu sobre o assunto, depois pense um bocado e dpois discuta com conhecimento de causas.

Jorge Machado-Dias

 
Às 2:37 da manhã , Blogger Jorge Machado-Dias disse...

Já agora devo esclarecer que o conceito "pornografia soft" (leve, ou implícita - isto do implícito e do explícito também é um conceito confuso) e "pornografia hard" (pesada, ou explícita) só apareceu depois da invenção do vídeo e consequente explosão da industria dos filmes ditos na generalidade "pornográficos" sendo essa distinção entre soft e hard inventada para classificar os ditos filmes. Mais tarde os filmes hard (pesados) seriam classificaos com um X - interditos a menores de x idade (esta idade varia de país para país).

 

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